Captulo 3
Socializao
Clara Regina Rappaport 
3.1 Desenvolvimento psicossocial 
Os seres humanos possuem uma tendncia para viver social- mente, fazendo parte de uma comunidade 
organizada com leis, costumes, religies, etc. Diramos que cada um de ns se sente como que pertencendo a 
vrios subgrupos sociais (famlia, grupo profissional, religioso, regional, etc.) que se organizam em culturas 
mais amplas (pases, Ocidente, etc.). 
No processo de formao da personalidade da criana vai-se desenvolver tambm aquele aspecto do eu que 
nos d a sensao de pertencermos a grupos, que faz com que nos sintamos ao mesmo tempo iguais a todos 
os outros indivduos do grupo e diferentes de todos eles. A este sentimento Erikson denominou sentimento de 
integridade do eu ou sentimento de identidade pessoal. 
Erikson consegue fazer uma notvel associao entre a teoria 
de sexualidade infantil (tal qual proposta por Freud) e o desenvolvimento fsico e social da criana, do 
adolescente e do adulto. 
Mostra que em cada fase do ciclo vital existe uma crise psicossocial (associada ao crescimento orgnico na 
infncia e s etapas de maturidade e envelhecimento na idade adulta), isto , uma necessidade de ajustamento 
pessoal s solicitaes do ambiente social. Neste particular, ousaramos fazer uma associao desta colocao 
de Erikson com as colocaes piagetianas de que, em cada fase da vida, o indivduo consegue criar, em sua 
vida mental, condies especiais de lidar com as solicitaes do ambiente externo, fsico e social (que seriam as 
vrias formas de equilbrio, conceito fundamental para o entendimento das fases ou etapas de 
desenvolvimento de Piaget). S que algumas diferenas fundamentais existem entre os dois posicionamentos. 
Uma delas seria que, para Piaget, na adolescncia o indivduo adquire sua forma final de equilbrio. Isto , 
adquire estruturas mentais e leis de funcionamento destas estruturas 
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que permanecero constantes durante toda a vida adulta. Erikson mostra que a idade adulta tambm apresenta 
perodos bem definidos dentro do ciclo vital, que requerem novas adaptaes, novas definies pessoais, que 
implicam uma reorganizao de vrios aspectos do eu. Outra diferena bsica seria a de que Piaget se atm 
mais a processos cognitivos, embora aceite os processos afetivos como fatores motivacionais para o 
desenvolvimento da inteligncia, e o fator social, principalmente a necessidade de integrao e aceitao no 
grupo de pares e na famlia, como um impulso bsico para a procura de formas superiores de pensamento e, 
portanto, de equilbrio. 
Erikson, por seu turno, detm-se na anlise dos conflitos internos relacionados ao desenvolvimento 
psicossexual e na anlise das oportunidades e exigncias que o meio social faz ao sujeito em cada fase de sua 
vida. 
Em ambas as posies (Erikson e Piaget) e, como veremos a seguir, tambm na postura de aprendizagem social, 
vemos a criana (e em Erikson tambm o adulto) criando dentro de si mesmo, portanto, em sua vida mental, 
condies de ajustamento ao ambiente fsico (pela compreenso das leis naturais, pela aquisio das noes 
de espao, tempo, causalidade, etc., etc.) e social. Se, para Piaget, a criana constri estruturas mentais cada 
vez mais complexas e abstratas para fazer frente  sua necessidade de adaptao, para Erikson ela 
desenvolver um sentimento de identidade, de eu, que cria uma sucesso de potencialidades para a interao 
significativa com aquelas pessoas que a abordam e lhe respondem e aquelas instituies que esto a postos 
para ela. Portanto, pode-se dizer que a personalidade se desenvolve de acordo com uma escala pr-
determinada, na prontido do organismo humano para ser impelido na direo de um crculo cada vez mais 
amplo de indivduos e instituies significantes, ao mesmo tempo em que est cnscio da existncia desse 
crculo e pronto para a interao com ele (Erikson, 1976, pg. 92). 
Neste sentido, consideramos oportuno apresentar, resumida- mente, alguns aspectos da socializao, tal qual 
so descritos por Erikson no incio da vida. 
3.1.1 O beb 
Atravs das interaes sociais e afetivas do beb com as pessoas de seu ambiente imediato, notadamente a 
me, ele ir desenvolver um sentimento de confiana bsica no mundo e em si mesmo. Isto , se a criana 
recebe uma certa dose de afeto, de amor, de uma pessoa que lhe  receptiva e se comporta de maneira 
consistente, ela ir lanar em seu interior um sentimento de que o mundo  
um lugar bom.  como se na fase oral incorporativa a criana incorporasse sensaoes boas e agradveis e 
adquirisse a capacidade de receber e aceitar o que lhe  dado (no caso o afeto materno), e tambm fosse capaz 
de oferecer afeto a outras pessoas (futuramente), por um processo de identificao com a me. Neste sentido, a 
primeira fase da vida da criana  fundamental para desenvolver um sentimento de confiana na capacidade de 
alguns elementos do mundo externo lhe oferecerem alimento, abrigo, afeto, segurana e tambem na criao de 
um sentimento de ser digna e merecedora destes mesmos elementos. 
Porm, nem sempre a me  receptiva, ou, em alguns casos, nem sequer existe essa figura afetiva constante, 
sobretudo em creches e orfanatos. Nesses casos, a criana poder desenvolver um sentimento mais ou menos 
intenso de desconfiana bsica, isto , de uma insegurana em relao aos provedores externos e  sua 
prpria capacidade de ser amada, de poder confiar em si mesma e nos outros. 
A colocao de Erikson  sempre bipolar. Considera que todos os indivduos ocupam um ponto na escala que 
vai de uma situao de total confiana para outra de total desconfiana.  claro que quanto maior a dose de 
confiana bsica, maior o otimismo que o indivduo ir manifestar diante das possibilidades de gratificao 
pessoal ao longo de sua vida. Porm, uma certa dose de desconfiana tambm se faz necessria para que o 
sujeito tenha condies de discemir pessoas e situaes realmente receptivas. 
3.1.2 A criana dos 18 aos 30 meses: os fundamentos da autonomia 
Nesta fase, a maturao orgnica dar  criana condies de controlar a expulso e a reteno das fezes. 
Neste sentido, a criana comear a experimentar sua vontade autnoma, no sentido de controlar seus 
produtos orgnicos e tambm de tentar fazer valer seus desejos frente s exigncias das figuras parentais, no 
que se refere a hbitos higinicos. 
Em nossa cultura existe uma nfase na necessidade de um controle precoce, que dever ser conseguido 
atravs de um treino relativamente rigoroso. Espera-se que a criana, atravs do controle de seus produtos 
corporais  que normalmente so sentidos como sujos, nojentos, etc. , prepare-se para ter um corpo sempre 
limpo, que funcione de maneira regular e previsvel (assemelhando-se a uma mquina, que, adequadamente 
programada, dever funcionar sempre bem). Mas o beb no  apenas um repositrio das exigncias culturais 
representadas neste momento, principalmente pelas prticas de treino de toiliete que sero adotadas pela me. 
Ele 
um indivduo que est lutando para se afirmar como pessoa dotada 
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de vontade prpria, de fazer escolhas, de se sentir aceito com todos os aspectos de sua personalidade, inclusive aqueles que 
possam parecer impertinentes aos olhos do adulto. Sim, porque se a criana desenvolver um sentimento de confiana bsica 
na fase anterior, ir agora, de certa forma, desafiar as exigncias maternas para testar a capacidade de ser amada mesmo 
quando se autodetermina, indo contra os desejos da me. Caber ento a esta, pelos sentimentos e atitudes que tomar aqui, 
permitir que a criana desenvolva este sentimento de autonomia, de se poder colocar com todos os aspectos do seu eu 
(bons e ruins, em termos culturais) e mesmo assim continuar sendo aceita e amada. Mas, se isso no ocorrer, a criana 
poder pender para um sentimento negativo em relao tanto aos seus produtos corporais como  sua capacidade de tomar 
iniciativas, e assim ir ser levada mais para um sentimento de vergonha (que rapidamente se associar  culpa) e de 
dvida (a respeito de si mesma e da firmeza de seus pais enquanto educadores). 
A crise desta faixa etria  ento representada pelo continuum autonomia x vergonha ou dvida, em relao ao prprio eu, 
que j est calcado nos sentimentos de confiana ou desconfiana desenvolvidos na fase anterior, os quais, por sua vez, 
serviro de base para o perodo de explorao social que acompanha a fase flica. 
3.1.3 Dos 3 aos 6 anos: o sentimento de iniciativa 
Esta  uma fase em que a criana parece dotada de uma energia interminvel, que  extravasada principalmente atravs de 
atividades motoras (correr, pular, subir, descer, etc.) e exploratrias. Comea a perceber o que  capaz de fazer e imaginar o 
que ser capaz de fazer futuramente. A partir da observao dos adultos no desempenho de seus papis sociais, e da 
possibilidade de desempenh-los ela prpria em seus jogos simblicos, a criana estar tambm aprendendo como funciona 
o mundo social e como ela funciona dentro dele: o tipo de atividade da criana que d ao adulto a impresso de que ela est 
em todos os lugares  quer saber tudo e participar de tudo (alm de receber e repetir as mensagens dos meios de 
comunicao de massa, notadamente a televiso)  foi designado por Erikson cqmo intruso. 
Este enno deriva da teoria de desenvolvimento da sexualidade de Freud e est relacionado s fantasias de penetrao 
associadas s vivncias da fase flica. S que, para Erikson, este mesmo tipo de atitude  observado em vrias outras 
atividades (explorao do espao, do desconhecido, das outras pessoas). 
Neste sentido, a contribuio desta fase para o desenvolvimento psicossocial ser o sentimento de poder confiar em sua 
prpria 
capacidade de iniciativa no desempenho de suas tarefas na idade adulta. O outro extremo da escala seria um 
sentimento de culpa (mais maduro do que a vergonha da fase anterior, porque mais intenorizado): a criana 
fantasia muito, imagina-se cometendo muitas falhas horrveis que podem lev-la a perder o amor dos pais, a 
nvel de fantasia. 
Vemos, portanto, que, ao mesmo tempo em que a criana elabora as suas vivncias caractersticas de cada fase 
do desenvolvimento psicossexual (oral, anal, flica), ela est aprendendo a ser social. Este aprendizado inclui 
sentimentos de auto-estima e auto- aceitao que daro as coordenadas do relacionamento com as outras 
pessoas, inclusive na situao de trabalho produtivo. 
Se as vivncias de cada uma destas trs fases penderem para os aspectos positivos, a criana ter 
desenvolvido a capacidade para confiar em si mesma e nos seus provedores externos, sentir-se- um indivduo 
ntegro e autnomo, digno de amar e ser amado, bem como com possibilidade de realizao plena de suas 
capacidades no desempenho de tarefas. Se algo falhar em qualquer destas fases, inmeras dificuldades 
surgiro no decorrer da infncia e idade adulta, podendo resultar inclusive em diversos tipos de patologia. 
3.2 A aprendizagem social e a socializao 
Em que pesem as discrepncias existentes entre as vrias correntes da psicanlise, de forma geral o mtodo de 
investigao utilizado apia-se na prtica clnica, no estudo clnico de indivduos e grupos. Neste sentido, o 
referencial para o desenvolvimento normal dos vrios aspectos da personalidade costuma vir da anlise de 
indivduos com vrios graus e tipos de perturbao. Sim, porque, se de certa forma a psicanlise tem sido 
desmistificada no sentido de que no se aplica apenas a loucos (conceito este que vem sendo bastante 
discutido), mas que pode beneficiar sujeitos ditos normais, apresentando qualquer tipo de conflito, 
dificilmente poderamos aplicar seus mtodos de investigao a amplas populaes de sujeitos, crianas e 
adultos. 
Esta  uma das crticas que os tericos da aprendizagem social tm feito com freqncia, pois enfatizam a 
importncia da observao direta do comportamento. No caso dos estudos de socializao, a aprendizagem 
social tem-se valido de instrumentos como questionrios, entrevistas, etc., mas (e principalmente por influncia 
da etologia) tambm da observao direta do sujeito em interao social. Assim, se a famlia, a escola e os 
companheiros so considerados agentes socializadores fundamentais, a linha de aprendizagem social se 
dispe a fazer estudos de observao detalhada, minuciosa e 
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controlada das manifestaes comportamentais da criana em situao de interao no lar, na escola, no local 
de brinquedo livre, etc. Estas observaes so feitas por profissionais treinados, que visam inclusive a evitar 
as categorias amplas de comportamento (como, por exemplo, agresso, dependncia, etc.) e a oferecer dados 
que permitam um entendimento mais discriminativo. Isto porque consideram que traos globais so unidades 
excessivamente grosseiras para o estudo da personalidade. Tais unidades globais no abrangem 
adequadamente a riqueza e a complexidade do comportamento social humano. Uma conceituao mais 
adequada de personalidade deve ter em conta a extraordinria adaptatividade do homem e suas capacidades de 
discriminao, de auto-regulao e de mudana construtiva, quando enfrentar um ambiente em mudana 
(Mischel, 1975, p. 100). 
Neste sentido, no que se refere ao desenvolvimento da tipificao sexual, ou identificao sexual, os tericos 
da aprendizagem social mostram a inadequao de se considerar apenas o relacionamento da criana com seus 
pais como diretriz fundamental para a aquisio desta caracterstica. Assim, rejeitam a explicao da psicanlise 
em termos do processo de identificao (relacionado  resoluo do conflito edpico), supondo que este, como 
qualquer outro aspecto do desenvolvimento social, pode ser explicado pelos processos de reforamento e 
observao de modelos, ateno e repetio, bem como por certos elementos cognitivos, como o esforo para 
alcanar uma consistncia cognitiva (entre suas prprias autocategorizaes). 
Neste sentido, o comportamento sexualmente tipificado (masculino ou feminino) seria o resultado de um 
processo individual de sntese de componentes extrados de muitos modelos e que se expressaria em padres 
pessoais. Assim, no apenas as caractersticas de cada membro do casal parental (mais ou menos masculinos 
ou femininos, recompensador contingente ou no, afetuoso, controlador, etc.) exerceriam influncia na criana, 
mas tambm todos os outros modelos observados (como professores, companheiros, personagens da TV, 
etc.). 
Assim, cada criana tornar-se-ia homem ou mulher a partir de sua histria pessoal de socializao. * E, ainda, os 
mesmos processos psicolgicos representados pelos mesmos conceitos tericos explicariam outros aspectos 
do desenvolvimento da personalidade, como a agresso, a dependncia, o autocontrole, etc. 
* Ver descrio detalhada dos estudos na obra de Mischel, citada na bibliografia do final do captulo. 
3.2.1 A famlia 
No caso da criana pequena, a famlia , sem dvida, o principai agente socializador. Os pais tm a 
responsabilidade de fazer com que seus filhos desenvolvam caractersticas de personalidade e de 
comportamento que sejam consideradas adequadas a seu sexo e aos vrios subgrupos culturais a 
que pertencem (religioso, classe social, etc.). 
As dificuldades metodolgicas existentes nos estudos que visam  obteno da noo da seqncia 
de interaes familiares que resultam no aparecimento de um ou de outro padro comportamental na 
criana j foram discutidas em outros volumes desta srie, de forma que no sero retomadas neste 
momento. 
O que se constata, de maneira geral,  que o tipo de ambiente familiar, resultante da adoo por 
parte dos pais de um ou de outro tipo de prticas de criao infantil, resulta em maior ou menor 
competncia da criana para enfrentar situaes diversas, bem como em sentimentos positivos ou 
negativos para consigo mesma (em termos de autoconceito). Assim, as crianas mais saudveis 
psicologicamente so aquelas cujos pais adotam prticas disciplinares consideradas democrticas. 
Isto , usam explicao e reforo positivo como atitudes predominantes, evitam os castigos fsicos, 
solicitam a participao da criana em decises familiares que lhe dizem respeito (atividades 
escolares, esportivas ou de lazer, por exemplo), procuram fazer com que seus filhos se tornem 
competentes e independentes, levando em considerao a idade da criana, seu sexo, habilidades, 
etc. o tipo de atitude encontrado com maior freqncia em famlias de classe mdia com alto nvel 
educacional. 
J no caso de pais autoritrios, que freqentemente usam a punio (algumas vezes at 
espancamentos violentos), impondo aos filhos seus prprios pontos de vista sem qualquer explicao, 
embora possam diferir no grau de afeto dedicado s crianas, podem desenvolver atitudes que 
favoream a adaptao social (principalmente pelo conformismo), mas no uma personalidade feliz, 
com possibilidade de ampla realizao pessoal (embora possam ter sucesso profissional ou social). 
Pais permissivos, inconsistentes, desorganizados (em termos de 
suas atividades pessoais ou da rotina domstica) tendem a fazer 
om que seus filhos sejam imaturos, inseguros e com baixa auto- 
estima. Em geral, estes pais so eles mesmos imaturos e inseguros, 
e seus filhos so os que tm maior dificuldade de adaptao social 
e realizao pessoal. 
Embora seja fcil reconhecer que o ideal  uma atmosfera domstica democrtica, no  to fcil 
chegar a ela, especialmente 
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em nossa cultura, onde apenas recentemente abandonamos um padro familiar 1igidamente patriarcal. O que 
vemos, na maioria das vezes, so tentativas de se criar esta atmosfera democrtica gerando conflitos em pais 
que sofreram uma educao autoritria e repressiva. Isto, quando pensamos em pais de classe mdia com nvel 
educacional elevado, porque na classe baixa continuamos a ter, na maioria das famlias, uma educao 
autoritria, rgida, mais voltada para o conformismo do que para o desenvolvimento pessoal da criana. 
Se, por um lado, os tericos da aprendizagem social criticam a psicanlise pela metodologia empregada, por 
outro, tambm verificamos que categorias to amplas de classificao das atitudes parentais tm valor e 
utilidade discutveis. Neste sentido, cremos que o progresso na aplicao dos mtodos etolgicos de registro 
detalhado da situao de interao familiar  que nos permitir chegar a um ponto de maior maturidade 
conceitual e tcnica, no sentido de fornecer ao psiclogo clnico ou educacional maiores recursos para o seu 
trabalho profiltico ou remediativo de orientao familiar. Felizmente, temos assistido a um interesse crescente 
por parte dos pais (embora ainda restrito a certos crculos sociais) em participar de grupos de discusso e 
orientao como as escolas de pais ou grupos de pais e mestres. 
Faz-se necessrio, portanto, um incremento na pesquisa, em nosso pas, para que tenhamos um instrumental 
adequado para esta tarefa. 
3.2.2 A socializao de motivos 
O modelo de aprendizagem social surgiu da tentativa de alguns autores utilizarem um mtodo experimental 
(derivado do behaviorismo), sem contudo negligenciar aspectos internos, como os elementos cognitivos e os 
motivos subjacentes que direcionam o comportamento. 
Neste sentido, podemos diferenciar motivos sexuais (representados pelo desejo de obteno de gratificaes, 
de sensaes prazerosas genitais ou no) de comportamentos sexuais (no caso das crianas, masturbao e 
brincadeiras que visam  explorao e exposio dos prprios genitais ou dos de outras crianas e adultos, 
interesse pelo processo de fecundao e nascimento, etc.). O mesmo ocorre em relao aos motivos agressivos 
(ligados  hostilidade, ao desejo de prejudicar fsica, moral, material ou psicologicamente algum) que incluem 
um elemento cognitivo de interpretao do comportamento de outras pessoas. 
Por exemplo, uma criana de 4 anos poder interpretar o fato de ser matriculadi numa escola 
maternal como rejeio da me, que ficar em casa cuidando de seu irmozinho recm-nascido 
durante o tempo em que ela permanece na escola. Desenvolver, ento, hostilidade tanto em relao 
 me como ao irmo e poder manifestar esse sentimento em forma de agresso fsica ou verbal 
dirigida a um, ou outro, ou a ambos. 
No caso da agresso, existem ainda inmeros fatores que podem ser citados como motivadores. Um 
exemplo seria ligado  hiptese da frustrao como geradora de violncia. 
Considerando que a criana pr-escolar  frustrada inmeras vezes durante o dia, quer pelos pais, 
quer pelos professores e companheiros na expresso de seus motivos sexuais, pela presena de 
obstculos  realizao de seus desejos de ateno (por exemplo, um irmozinho), de explorao 
(como fatores climticos, que impedem o brinquedo ao ar livre) e muitos outros, podemos 
compreender os inmeros episdios agressivos observados nesta fase. E importante considerar aqui 
a presena ou ausncia de modelos agressivos para serem imitados e o reforo social dirigido  
emisso deste tipo de comportamento. 
Cremos que nossa sociedade seja ambgua em relao ao treino e  aceitao de comportamentos 
agressivos. Por um lado, consideramos que uma criana que bate em outra  um menino muito feio 
e muito mau, e, por outro, associamos esta mesma atitude  independncia, masculinidade e 
capacidade de liderana. Consideramos ainda muito natural que os pais possam emitir 
comportamentos agressivos para com os filhos (castigar, gritar, bater), mas no permitimos que as 
crianas repitam estas atitudes. Oferecemos ainda uma programao de televiso repleta de cenas 
agressivas (principalmente na programao dirigida s crianas, como os desenhos animados do 
pica-pau, do gato e do rato ou do marinheiro Popeye, alm de uma srie interminvel de filmes onde 
cidades inteiras so ameaadas por terrveis monstros, ou super-heris que lutam bravamente com 
os punhos ou vrios tipos de armas sofisticadas), alm de um verdadeiro arsenal de brinquedos que 
imitam revlveres, tanques, avies, navios de guerra etc. 
E, alm da exposio a todos esses modelos, convm lembrar que a maioria das crianas 
(especialmente nas grandes cidades) vive dentro de apartamentos ou casas sem lugar adequado 
para brincar 
sabe-se que animais em cativeiro tornam-se mais agressivos. 
E, numa situao dessas, com pais atarefados, sujeitos a inmeras fontes de tenso, ainda nos 
perguntamos por que a violncia tem aumentado tanto (sem esquecer obviamente aspectos sociais e 
econmicos que tambm so determinantes de violncia). 
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Ser que uni menino briguento  realmente um mau menino ou  expresso de um estilo de vida inadequado, 
onde impera todo 
tipo de desrespeito s necessidades infantis? 
E, no caso das meninas, o que se espera delas? Que no sejam agressivas? Como podero esquecer os 
modelos da televiso ou as histrias em quadrinhos (como a Mnica ou a Mulher Maravilha)? 
 importante lembrar que os tericos da aprendizagem social distinguem a violncia da agresso instrumental, 
ou seja, aquela que visa  consecuo de um determinado objetivo (como vencer uma competio esportiva, 
ou obter um determinado objetivo). 
Se a agresso faz parte da natureza humana e  de certo modo importante para a sobrevivncia, seria adequado 
que as crianas (e os adultos) encontrassem formas saudveis de express-la, como, por exemplo, a prtica de 
esportes ou brinquedo livre, bem como manifestaes artsticas, etc. 
Sabe-se tambm que o maior antdoto para o desenvolvimento da agresso excessiva em crianas e jovens  a 
boa integrao familiar. Entre jovens que so expostos a modelos sociais agressivos (especialmente os da 
televiso), aqueles que no tm um relacionamento satisfatrio no lar so os mais propensos a desenvolver 
comportamentos delinqentes, como atestam inmeras pesquisas, notadamente nos E.U.A. 
3.3 Bibliografia 
1. Blurton Jones, N. Estudos etolgicos do com portamento da criana. So Paulo, Ed. Pioneira, 1981. 
2 Erikson, E. Infncia e sociedade. 2. cd. Lo de Janeiro, Ed. Zahar, 1976. 
3 Erikson, E. Identidade, juventude e crise. Rio de Janeiro, Ed. Zahar, 1972. 
4. Feshbach, S. Agresso. In: Carmichael, L. Manual de Psicologia da Criana. 
Organizador: P.H. Mussen. So Paulo, E.P.U./EDUSP, 1975. v. 8, cap. 3. 
5. Mischel, W. Tipificao sexual e socializao. In: Carmichael, L. Manual de Psicologia da Criana. Organizador: 
P.H. Mussen. So Paulo, E.P.U./ 
EDUSP, 1975. v. 8, cap. 1. 
6. Mussen, P.H.; Conger, J.J. e Kagan, J. Desenvolvimento e personalidade da criana. 4. cd. So Paulo, Ed. Harper 
& Row do Brasil Ltda., 1977, 
opoo 
Amarilis Pavoni 
OS CONTOS E OS MITOS NO ENSINO 
Uma abordagem junguiana 
88 p., 14x2l CTI, ISBN 85.12-30570-3 
Os contos de fadas, os mitos, a arte em geral so formas simblicas pelas quais a psique se 
manifesta. 
Jung freqentemente aponta para a necessidade de haver a integrao do inconsciente no 
consciente a fim de assegurar a sade psquica da pessoa. Ele chama a ateno para o fato de que, 
se os contedos inconscientes permanecem desconhecidos, eles ficam autnomos no inconsciente, 
buscando, sem cessar, uma porta para se manifestar, trazendo o desconforto da depresso, da 
angstia e at da neurose. 
Falando de fadas, princesas e duendes, este livro mostra como os contos de fadas podem contribuir 
para a formao harmoniosa da criana. As histrias e os mitos atraem as crianas levando-as a se 
interessarem pela leitura com o conseqente desenvolvimento da expresso oral e escrita e um 
melhor rendimento tambm nas outras disciplinas. 
Os pais e professores encontraro no presente livro valiosos subsdios para uma educao mais 
prazenteira e por isso mesmo mais eficaz. 
Sumrio: A proposta educacional. O problema da interpretao. A teoria junguiana. A criana e o 
mito. O processo de individuao nos contos de fadas. Bibliografia. 
78 
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